quarta-feira, novembro 09, 2011

Kuwait: país desconhecido no futsal, mas de uma riqueza impressionante

Douglas de Sá é estudante de Jornalismo da Unisul Tubarão

Viajar pelo exterior é um sonho de muitas pessoas, e principalmente quando se trata de atletas. O gosto de trabalhar, ser reconhecido, e trabalhar fora do país não tem preço. Pra mim isso iniciou em Julho, quanto tive a chance de conhecer o Kuwait. Muitos de vocês leitores talvez não tenham idéia de como é o país, assim como eu não tinha noção. Para alguns, vem à ideia de guerra, por ser do lado Iraque, Iran. Claro que o Kuwait propriamente já foi invadido pelo Iraque, em 1990, a qual destruiu reservas de petróleo e "tocou o terror" lá. Mas a realidade é totalmente diferente.

Os EUA, na época tomaram parte do controle, e ate hoje auxiliam na proteção do país. Aliás, atualmente eu tenho uma concepção muito elevada de lá. Eu realmente fiquei muito contente quando desembarquei e me deparei com carros como Ferrari, Lamborghini, Audi, e as construções fantásticas, a qual não tinha como comparar com o Brasil. Três pistas, até quatro na ida para o hotel. O Diego (brasileiro e preparador de goleiro do Salmiya) e o árabe que estava comigo, tentava se comunicar comigo, mas um inglês meio enrolado, e não seria da língua deles que eu conseguiria falar, porque afinal, parece que eles têm um prego na língua, principalmente quando vão pronunciar palavras que puxam demais o "R".

O complicado no início foi o fuso de seis horas de diferença. Dormir não foi tão fácil, mesmo cansado com as onze horas até Amsterdã, mais cinco até Bahrein, e finalmente umas duas ate o Kuwait. O bom é que treinávamos a noite, pois alguns atletas do time trabalhavam de dia. É isso mesmo. Lá profissionais são os estrangeiros, porque quem mora lá joga por amor, não por dinheiro. Por isso não têm tanta responsabilidade de horário de treinos, ou às vezes nem vão devido ao cansaço do trabalho.

Eu falo do clube que eu estava treinando, que era o Al Salmiya. Sendo que um ponto forte que relato do time, é o acolhimento que eles têm. Alguns atletas falavam inglês fluente, e isso facilitava na comunicação. Convidavam-nos para ir às mansões, que na verdade ficávamos num espaço, na frente da casa, como se fosse uma sala, em que eles se reuniam para jogar videogame, comer. Ah, isso eles prezam muito. A satisfação deles é pagar coisas para comer, ou fartura na mesa. Por esse motivo, quando se entra na casa deles, é necessário que tire o calçado, justamente para a comida ficar sobre o tapete. Sem dúvida, ser bem acolhido num país distante, e longe da família era fundamental.

Porém eu creio que a maior dificuldade que pudemos encontrar era o fato que naquele mes de agosto, eles entram num ritual que é do Ramadan. Ou seja, não se pode colocar nada na boca ( cigarro, água, comida, chiclete) da hora em que o sol nasce ate o sol se pôr. De fato, ir jogar com 43 graus, e sem poder tomar água no jogo era no mínimo estranho. Mas superável também, pois os jogos eram só dez minutos corridos cada lado. Mesmo sendo pouco tempo, era bacana ver o ginásio cheio, o pessoal fazendo barulho, e os jogos sendo televisionados. Um dos patrocinadores do evento era a Samsung, por esse motivo, todo jogo eles elegiam o melhor da partida, e davam um celular. Felizmente tive esse prazer no início da competição, mesmo suando o dobro.

Ainda bem que os ginásios são climatizados, e não chega ser insuportável o calor. Nós chegamos a pegar 49 graus. Mesmo todos os ambientes sendo preparados para situação, sair na rua era loucura. E o engraçado é que o pessoal dificilmente sai a pé. Por ter um padrão de vida alto, as famílias têm 4 carros por aí. E detalhe, todas possuem pelo menos 6 pessoas. Outra coisa que facilita para eles possuírem carros, é que os preços são baixíssimos. Um carro popular, com ar condicionado e câmbio automático está uns 10 mil reais. Isso por não pagarem impostos, eu digo não pagar luz, nem Ipva, nada. 80% da renda do governo vêm do petróleo.

Certo dia fomos abastecer o carro de um cara engraçado, que era da recepção do hotel, Egípcio, e ele pediu que colocasse 30 litros. Deu 2 Dinar, que é a moeda deles. Se converter, 1 Dinar equivale a 6 reais. Enchendo o tanque quase, ele pagou 12 reais. É realmente surpreendente. O custo também é barato, as refeições não eram caras, apesar de sofrermos muito com a época do Ramadan. Às vezes íamos para academia a tarde, e então tomávamos café, e esperávamos ate depois das 18h30 para "almoçar", que era a hora que abriam os restaurantes. Enquanto o treino era às 23hs. Se a polícia pegasse comendo algo na rua, de dia, eles aplicavam multa, e podiam ate levar para a prisão. Além disso, bebida é ilegal no país. Ou seja, sem balada, sem barzinho, sem cerveja. Caso pegassem alguém andando com bebida alcoólica, era arriscado ser deportado de lá.

Vocês se perguntam o que nos fazíamos o dia inteiro? Nada. Era só internet mesmo, porque os canais da TV eram em árabe, e um que outro com legenda em inglês. A distração era ir ao Mc, ou jogar boliche. E pensar em dar em cima de mulher era descartado a possibilidade. A cultura deles é muito diferente. A maioria da população é muçulmana, e as mulheres andam com seus lenços, umas cobrindo toda parte do corpo e rosto, e umas deixando aparecer pelo menos à boca, olhos. E é inusitado o jeito que eles namoram, ou começam um contato. Muitos possuem IPhone, e quando vão ao shopping ficam olhando no bluetooth o número do celular da pessoa, e aí começa uma conversa, mas sem contato físico, diríamos que um pouco diferente do Brasil. E também fazem isso no trânsito.

Lá tem a cultura de a família escolher, por exemplo, a namorada do rapaz. Se a mãe não gostar, vai ser difícil levar para frente. Ou ela própria, escolhe entre as amigas, uma filha que encaixe com ele. Com uma permanência de um mês eu quase pedi para minha família ir para o Kuwait para ao menos conhecer alguma garota. Sem contar que academia é separada, só para homens, e mulheres.

Dentre esses aspectos, essas convivências, e não ter passado de fase na competição, que eram 4 jogos, eu aprendi muito. Pude ver que mesmo com essas riquezas o pessoal é sensacional. Eles não observam o lado mau das coisas. Profissionalmente lá é mais fraco que o Brasil. Tem alguns jogadores habilidosos, mas sem muita parte tática. Só que isso vem mudando, com a permanência de jogadores brasileiros nesses clubes. A disputa está sendo maior na Liga, o objetivo dos times em contratar atletas esta ajudando no processo de evolução. Lá 3 estrangeiros podem ser inscritos, e fardar somente 2. A ida do Cabreúva auxilia nesse "conhecimento" do Kuwait.

A expectativa é que essas empresas continuem levando jogadores, que valorizem, que a Liga fique mais disputada, e assim, o Futsal cresça nesses países que antes eram desconhecidos. Afinal de contas, isso já vem acontecendo em muitas localidades. Defendo a idéia de que, indo brasileiros que, muitas vezes, não são tão valorizados no Brasil e possam ajudar a divulgar, levar o nome desses países para competições, e assim contribuir para um conhecimento a nível mundial. O atleta pensa no fator econômico, por sair da cidade, deixar família e amigos, só que ter essas experiências não há dinheiro que compre.

Eu acredito, que num futuro próximo, muitos conhecerão o Kuwait e outros países com menos no nível Futsal, a partir dessas iniciativas.

Publicado também em Na Rota da Bola.

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