Mauricio Nunes tinha quatro anos e rabiscava as páginas em branco dos álbuns de fotografia da família. Já sabia aproveitar as folhas em branco. Sua principal ferramenta é a vontade de narrar histórias. “A inspiração é a vontade de contar histórias, histórias que eu vejo no dia a dia, das pessoas na rua, das leituras nos jornais, da internet. Eu procuro essas histórias e reflito sobre elas, escrevo, apago, rabisco, desenho. Esse olhar crítico é o pensar. Vejo alguma coisa e tento pensar ao contrário. Ver com outros olhos, acho que esse é o ponto da inspiração”, conta Maurício.
Apesar de estar sempre procurando as histórias, Mauricio não se considera um artista em tempo integral. “Sou artista de fim de semana. Gosto de filmes, de ouvir as pessoas, eu quase não falo. Gosto de ficar em casa, sou um velho, gosto de muitas coisas”, conta.
Quando Mauricio se permite ser artista, entretanto, quer fugir do padrão, ele se permite a criatividade, muitas vezes confundida com a loucura. “Acho que essa loucura é o desprendimento que a arte nos oferece. Nos cartuns, por exemplo, eu fui mulher, terrorista, homossexual, machista, demagogo, homem, bicho. Não digo eu, mas os personagens sim. Eles têm um pouco de loucura, eles necessitam fugir do convencional para poderem existir. Na música eu vejo a mesma coisa: criamos personagens para as canções. A arte é esquizofrênica”.
Essa confusão entre arte e loucura se explica com a reação das pessoas. Maurício faz o possível para saber o que o público está visualizando. “Eu fico atento no que comentam. Eu utilizo as redes sociais e nelas vejo a recepção do público. Recentemente eu fiz um cartum sobre duas vizinhas evocando Santo Antônio. Achei ruim, quase arquivei. Acabei publicando e algumas pessoas elogiaram, mulheres elogiaram. O público surpreende. Por isso vou testando: um pode não gostar aqui, mas três podem gostar acolá”, diz. Se a ideia parece que não vai dar certo, ele não arrisca. “Agora, quando vejo que não vai sair algo legal, eu já desisto da ideia antes de ir pra mesa de desenho”.
“Mauricio procura aprimorar sua técnica e entende que a longevidade pode contribuir para isso, na construção dos cartuns e das letras. “Todo mundo nasce pedra bruta. Tem que lapidar. O traço no papel, ou o som da corda do instrumento é quase total técnica. Você tem que ter o "feeling" também. O fato é que tem de estudar muito. No sentido de criação de cartuns ou letra de música, você tem que ter bagagem. Não precisa ter vivido tudo exatamente, não é nesse sentido. A bagagem pode ser adquirida com leitura, filmes, música, ou seja, muito estudo. O bom do conhecimento é que ele é acumulativo, quanto mais você sabe mais você faz ligações com a realidade. Não que a arte não seja real, a arte é a realidade de uma forma muito mais bonita".
Maurício é colaborador do jornal Unisul Hoje com seus cartuns, é integrante da banda Cavaleiros Marginais em que compõe e toca violão, e trabalha na Unisul TV como editor de vídeo e áudio. Suas referências, como ele mesmo deixa claro, são tantas: Henfil, Millôr, Ziraldo, Angeli, Laerte, Adão, Quino, Watterson, Liniers, Dahmer.
Confira o blog de Mauricio: http://www.vulgonunes.blogspot.com
E o da site da banda: www.myspace.com/cavaleirosmarginais
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